Os dados do IBGE anunciados hoje comprovam que, em 2018, o Brasil retornou ao Mapa da Fome - lista de países com mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendável, segundo análise de Francisco Menezes, pesquisador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).
Desde 2014 o país já havia deixado a lista, lembrou o especialista - sendo que a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) já havia alertado no ano passado que o país poderia voltar a esse quadro, acrescentou ele.
Hoje, o IBGE anunciou levantamento que mostrou avanço da insegurança alimentar grave, ou fome, no país, que atingia 5% da população brasileira em 2018, ante 3,6% em 2013, alcançando 10,28 milhões de pessoas.
Menezes faz parte do grupo de trabalho Agenda 2030 - organização composta por entidades da sociedade civil, que faz monitoramento dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável pactuados pelo Brasil e outros 192 países da Organização das Nações Unidas (ONU). "O objetivo 2, da lista, é erradicar a fome. E, nos nossos trabalhos, já víamos que o país estava revertendo tendência positiva no tema", afirmou ele.
Para o técnico, a pesquisa do IBGE evidencia "retrocesso grande" no combate à fome no país. "Se olharmos o montante de domicílios em segurança alimentar, podemos ver que voltamos ao que patamar registrado em 2004", acrescentou.
Dois fatores conduziram ao cenário atual: o avanço da extrema pobreza, e um movimento de corte de políticas públicas em segurança alimentar a partir de 2014, afirmou o pesquisador. "Houve um desmonte muito grande nessas políticas, a partir de cortes orçamentários. Alguns, como programa de aquisição de alimentos de agricultura familiar, com compra institucional, foram praticamente zerados [até 2018]", afirmou ele.
Ao ser questionado se, com a pandemia, o quadro atualmente já seria até mais grave, devido à crise na economia originada do avanço da covid-19 no país, o especialista foi cauteloso. Ele comentou que, num primeiro momento da atual crise sanitária, em meados de março, com perda de renda forte originada do trabalho, principalmente de serviços, observou-se um agravamento do cenário da fome no Brasil. "Mas com o auxílio emergencial [pago pelo governo] houve um desafogo nesse sentido. Em torno de 60 milhões de pessoas receberam esse auxílio", afirmou ele.
No entanto, ressaltou que o benefício emergencial do governo irá continuar apenas até o fim do ano, e ainda em valor menor. Na análise do especialista, é muito provável que o quadro da fome se agrave, ante ao que foi detectado até 2018 pelo IBGE, quando o governo parar de pagar o auxílio. “Isso nos preocupa muito”, afirmou ele. “Ninguém tem a ilusão de que a economia vai se recuperar rápido”, afirmou ele, ressaltando que houve forte perda de renda do trabalho esse ano. “E não tem como o governo continuar a pagar o auxílio indefinidamente. O custo é muito elevado, pelo valor e pelo número de pessoas que contempla”, comentou ele
Outro agravante citado por ele é o fato de que mesmo com sinais de avanço de pobreza, detectados em dados oficiais do governo apurados pelo IBGE - a parcela de brasileiros vivendo abaixo da linha da extrema pobreza subiu de 4,5% para 6,5% entre 2014 e 2018 - não houve aumento de inserção de famílias em programas de transferência de renda, pelo contrário. "O volume de reinserção de famílias no Bolsa Família diminuiu", comentou ele.
Para reduzir a fome do país, o especialista defendeu uma reforma tributária, com progressiva taxação de riqueza, para angariar recursos e alocar em programas de transferência de renda.
Ele citou recente fala do presidente Jair Bolsonaro de que o projeto do programa Renda Brasil seria assunto proibido na atual gestão. Na análise do especialista, mesmo que o presidente não queira falar mais em programas com esse perfil, isso não quer dizer que eles não sejam necessários. "Em junho do ano passado o presidente declarou que quem falava de fome no Brasil estava pregando uma mentira. E nós respondemos na ocasião, 'vamos discutir isso a partir da divulgação dos dados'. E os dados chegaram", disse, citando o levantamento do IBGE. "Isso mostra que não adianta tentar fingir que o problema da fome não existe. O problema existe e tem que ser enfrentado com seriedade", concluiu ele.
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