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Didier Raoult: biografia desconstrói o 'Doutor Cloroquina'

Jornalistas francesas descrevem ascensão e queda do polêmico médico, que popularizou o tratamento precoce contra covid-19
O medico francês Didier Raoult virou celebridade mundial ao defender a cloroquina contra o coronavírus Foto: CHRISTOPHE SIMON / AFP
O medico francês Didier Raoult virou celebridade mundial ao defender a cloroquina contra o coronavírus Foto: CHRISTOPHE SIMON / AFP

RIO - Responsável por lançar a cloroquina como uma suposta cura milagrosa para a Covid-19, o médico Didier Raoult virou uma celebridade mundial da noite para o dia. Em especial no Brasil, onde o remédio está no coração das teorias do complô e das fake news sobre a pandemia, e é citado em praticamente todos os dias na CPI do covid , que continua avançando em Brasília.

É provável que você já tenha visto alguma história envolvendo o excêntrico médico francês circulando no grupo de WhatsApp da família. Mas a figura de Raoult, para além de seus longos cabelos brancos de ermitão, ainda é cheia de mistérios. Você sabia que ele diz ter um QI de 180, maior do que o de Mozart e o de Einstein? Ou que sua mãe inspirou uma personagem de um famoso romance francês dos anos 1930? Ou que ele mentiu sobre as suas “aventuras” marítimas na juventude?

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Recém-lançada na França e ainda sem previsão de chegar ao Brasil, a biografia “Raoult - Une folie française” (“Raoult - Uma loucura francesa”, em tradução livre), de Ariane Chemin e Marie-France Etchegoin, faz revelações sobre uma das figuras mais controversas da pandemia. A dupla de jornalistas investiga o passado do Doutor Cloroquina antes da cloroquina, e mostra como um respeitado pesquisador se tornou um pária na comunidade científica. Em junho, quase ao mesmo tempo em que o livro saía na França, o hospital chefiado por Raoult em Marselha era alvo de uma investigação policial.

QI 180

Ao voltar à infância de Raoult, elas descobrem um evento que iria moldar a personalidade um tanto megalomaníaca do personagem. O futuro pesquisador tinha 14 anos quando um pedopsiquiatra deu a notícia para o seu pai: "Escute, seu filho tem 180 de QI. Deixa ele. Tudo vai ficar bem".

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De acordo com os padrões, um QI médio giraria em torno de 100, enquanto as mentes diferenciadas ultrapassariam 140. Pouco importa se esse tipo de teste é confiável ou não. Raoult cresceu acreditando ser uma espécie de gênio, o que certamente contribuiu para a sua dificuldade em lidar com regras. “Eu sou uma estrela, eu tenho tudo que (um grande médico) precisa”, disse ele a uma rádio no auge das polêmicas em torno da cloroquina.

'Aventuras' marítimas

Tentando fugir das ordens rígidas de seu pai militar, Raoult largou a faculdade de medicina para viajar por dois anos pelos mares — história que casa muito bem com o seu visual “pirata”. Em entrevistas, o médico sempre relatou essas viagens de forma evasiva, dando a entender que se tratavam de grandes aventuras em embarcações clandestinas, nas quais ele teria se conectado com as origens marítimas bretãs de sua família.

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A lenda pinta os anos de formação do médico nos anos 1970 como um rolê à la Rimbaud, mas a realidade pode ser bem menos palpitante. Em sua pesquisa, Chemin e Etchegoin descobriram que, na verdade, Raoult embarcou em um navio de luxo. Questionado pelas jornalistas, ele muda a versão. Diz que entrou na tripulação como um empregado, mas não lembra por quanto tempo.

Raoultmania

Outras revelações curiosas estão em background familiar. A mãe do guru chegou a namorar o famoso escritor Henry de Montherlant e acabou sendo retratada em sua saga literária dos anos 1930, “Les jeunes filles”. O médico, por sinal, se diz ávido por cultura. Ama a filosofia (é adepto do estoicismo) e os romances russos do século 19.

Mas, para o leitor brasileiro, talvez a parte mais importante seja a sua atuação na pandemia. Até então, ele era um médico respeitado no mundo da ciência, mas desconhecido do grande público. Com o surgimento do coronavírus, porém, Raoult se torna uma figura internacional. Quando o presidente Donald Trump faz propaganda da cloroquina em seu Twitter, o médico vai às nuvens. “Trump fez da cloroquina um objeto-mundo, um híper-objeto”, filosofa o médico, dando uma de semiólogo amador.

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Os capítulos sobre a efêmera raoultmania na França mostram como muita gente importante por lá se deixou seduzir pelas ideias de Raoult no início da pandemia (o Brasil e Jair Bolsonaro são citados apenas uma vez no livro todo). O midiático filósofo Bernard-Henri Levy defendeu a cloroquina como um “remédio antigo” e seguro, louvando a personalidade “bigger than life” do médico. O anarquista de direita Fabrice Lucchini, ator de filmes de Eric Rohmer e grande estrela do cinema, tem a obsessão de interpretá-lo na tela.

Na política, não foi diferente. Tanto a socialista Ségolène Royal quanto a populista de extrema-direita Marine LePen clamaram para que a cloroquina fosse adotada logo. Já o presidente Emmanuel Macron foi visitá-lo em segredo. “Às vezes temos a impressão de que os cérebros se esfregam um contra o outro”, disse Raoult sobre o encontro. “Quando acontece com um presidente, é agradável”. Mas o guru do tratamento precoce tem uma queixa. Ele queria que o presidente tivesse usado um helicóptero para encontrá-lo. “Teria mais impacto”, justificou.

A farsa

A queda de Raoult chega logo depois, com pesquisadores do mundo todo mostrando falhas em seus estudos. As jornalistas retratam o desgaste progressivo do guru, que acaba ele próprio admitindo a ineficácia da cloroquina. A biografia da dupla de jornalistas é a constatação de como teorias duvidosas podem facilmente ganhar força em tempos de incertezas, especialmente se encabeçadas por figuras carismáticas e antissistêmicas.

Na grande histeria coletiva, artistas defenderam Raoult porque projetavam nele às suas próprias rebeldias, enquanto políticos tentaram surfar na sua popularidade para mostrar rapidez de ação. “Raoult é o populismo em versão superdiplomada, é o sábio superior que reivindica seu pertencimento às ‘elites’”, concluem as autoras. “Em seus discursos autopromocionais sem pudor algum, os sem atributos veem apesar de tudo um tapa nos ‘poderosos’. Com um pé dentro e outro fora, Raoult se dá o luxo de quebrar a banca. E isso agrada.”